Hoje tenho o prazer em publicar texto do Dr.Juliano Martins;grande companheiro de luta;
“Não pergunte por
quem os sinos dobram.
Os sinos dobram por ti”.
Ernest Hemingway
CHUVA DE BOSTA
Total perplexidade! Essa foi a reação imediata ao ouvir pela primeira vez a expressão encimada.
E uma dúvida: O que teria levado um poeta como Zé Ramalho a utilizar-se de uma expressão tão agressiva a ouvidos displicentes?
Para entender a intenção do paraibano é necessário prosseguir na leitura: “Prevejo dias com o ventre da terra à mostra, céu sem sol, chuva de bosta, mentira igual verdade”.
De olhos fechados, vê-se a cena pintada pelo poeta. A terra revolvida, em meio a total escuridão, a expulsar de seu vente rochas e lavas, enquanto os excrementos se espalham como chuva. E a essa cena assustadora o autor compara uma das grandes questões de nossos dias, a confusão entre mentira e verdade.
Não é preciso grande esforço para compreender a presença quotidiana desse contra-senso. Bastam alguns minutos em frente à TV, sobretudo pela manhã ou no final da tarde.
Um sem número de desgraças, crimes, violências, corrupção e desesperos se estampam na tela, enquanto apresentadores gritam enfurecidos, querendo fazer crer que a sociedade se deteriora aceleradamente.
Onde estão a mentira e a verdade em tudo isso?
É fato que existem crimes, violência e tragédias as mais diversas, mas serão estas maioria avassaladora entre todos os acontecimentos do dia?
Não se trata de fechar os olhos para a necessidade de prevenir e combater esses dissabores; mas a cada manhã, enquanto os “jornais” televisivos inundam corações e mentes com as mais estressantes “novidades”, longe das telas, milhões de homens e mulheres de bem se dirigem para o trabalho, enquanto novas gerações tomam acento em milhares de escolas, medicamentos são descobertos, livros e músicas lançados, pesquisas revolucionam a ciência, e nada disso se transforma em manchete!
Enquanto os “jornais” repetem cenas trágicas, não raro por dias a fio, distante das câmeras, milhares de pessoas de bem se dedicam ao voluntariado, buscando colaborar concretamente com a construção de um futuro mais digno para todos, igualmente sem qualquer destaque no noticiário.
Enquanto isso, parte da mídia tenta vender a ideologia do fracasso, como se a raça humana piorasse a cada amanhecer.
Tempos houve em que o trabalho escravo era tido como natural. Aqueles que nasciam fora dos palácios estavam condenados à morte prematura ao fim de uma vida de pobres e analfabetos. Epidemias assolavam comunidades de trabalhadores onde os esgotos corriam a céu aberto, enquanto poderosos se refestelavam em intermináveis banquetes e, àqueles que ousassem rebelar-se contra tais injustiças estavam reservadas as masmorras e valas comuns. Não haveria corrupção e violência naqueles tempos? Seriam nossos dias realmente piores do que aqueles?
As amarguras da humanidade são como o câncer ao qual estamos todos sujeitos, e certamente matavam mais quando não eram conhecidas e portanto não podiam ser combatidas.
Se é bom para a sociedade conhecer as agruras da democracia, é nefasta a falsa impressão de que é ela a culpada por todos os males de nossos dias.
O passado recente, em que crianças cresciam assistindo a seus pais, parente e amigos, conversando em volta da fogueira, nos legou Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Castro Alves, Irmã Dulce, e tantos outros. Que heróis estaremos criando no balanço geral de nossos dias?
É chegada a hora de agirmos, antes que a chuva aperte...
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