domingo, 3 de janeiro de 2016

Bronca com apê de Chico Buarque em Paris expõe intolerância e ressentimento

Pra quem odeia, o que dói mais é o sorriso! Pingos nos is: na essência, o que houve no Leblon na noite da segunda-feira não foi bate-boca. E sim intimidação e provocação de um grupo de jovens adultos contra Chico Buarque, 71, e amigos com quem o artista passeava, depois de jantar. Chico estava na dele. O ato hostil decorre do que na cachola de intolerantes constitui delito de opinião. A, B ou C? É o de menos. Poderia ser qualquer uma. O crime é ter e expressar opinião diversa. “Você gravou um vídeo apoiando a Dilma'', disse em tom acusatório um dos participantes do cerco. Diante da agressividade, Chico tentou esgrimir ideias. Pode-se concordar ou divergir dele. O inaceitável é levar uma dura por acreditar nisso ou naquilo. O compositor que criou uma canção falando “no tempo da delicadeza'' escreveu sobre um porvir que parece cada vez mais alucinação utópica. “Você é um merda'', berrou um sujeito para ele. A desqualificação do interlocutor é característica autoritária. O mal não é apenas o que o outro pensa, mas o outro. No fundo, trai a indigência de argumentos. “Vai correr daqui já?'', urrou um valentão de ópera-bufa. Como Chico é Chico, enquanto rostos vincados pelo ódio o miravam, ele reagia com sorrisos. Para quem odeia, o que dói mais é o sorriso. Retrato do Brasil, os insultos no Leblon são herança de nossas raízes. Não somos a terra de gente cordial, mas onde a escravidão foi mais longeva, onde a desigualdade obscena campeia, onde depois de vencidos adversários são decapitados (de Canudos ao Araguaia, passando pelo cangaço). Os intolerantes de anteontem aparentemente não querem cortar a cabeça de ninguém. Talvez somente arrancar as cordas vocais. Pensar até pode. Falar seria prerrogativa de quem pensa igual. O surto na noite do Rio têm outras ascendências. Na Alemanha da década de 1930, os nazistas perseguiam também quem ousava dizer não. Os intolerantes da segunda-feira formam no que um protagonista do Brasil republicano ironizava como “a turma do Jockey''. Núcleos de grã-finos que pretendem impor a qualquer preço ideias e interesses. Outro traço distintivo é a vulgaridade de certa elite, como contemplado no vídeo que nasceu como documento histórico e antropológico (para assisti-lo, é só clicar aqui). Já de início a abordagem a Chico Buarque foi vulgar, tomando árvores pela floresta: “Todo mundo era seu fã, Chico''. Um dos intolerantes, Alvaro Garnero Filho, é rebento do empresário Alvaro Garnero. O pai “confirmou a presença do filho no episódio'' e “disse que teve de explicar a Alvarinho quem era Chico Buarque“. Quer vulgaridade e ignorância maiores que um marmanjo com acesso à educação e à cultura precisar de explicação, no século 21, sobre quem é Chico Buarque? O milionário Alvaro Garnero é um dos herdeiros do grupo Monteiro Aranha. A nau da intolerância guarda lugar para os ressentidos. O mesmo indivíduo que chamou Chico Buarque de “merda'' falou: “Para quem mora em Paris, é fácil''. Vacilou: “Você mora em Paris, não mora?'' Chico mora ali pertinho, no Leblon. Logo outro provocador emendou “Tem um apartamento lá em Paris. É gostoso Paris, né?'' A bronca com o apê de Chico em Paris é o vômito dos ressentidos. No Marais ou na Île Saint-Louis, o autor de “Vai trabalhar, vagabundo'' o comprou com dinheiro ganho honestamente. Ao contrário de alguns brasileiros donos de imóveis na Europa, não recebeu de herança seu apartamento. E se tivesse? Adquiriu-o com a grana suada do seu trabalho. Qual o problema? Os fascistoides agora viraram partidários da propriedade coletiva? De uma parte deles, Chico é alvo do ressentimento comum a determinada classe média que abomina pobre e inveja rico. Nesse caso, merda é a inveja. Para os ricos-ricos, Chico é um traidor. Traidor de classe. Como pode um cidadão que vive no Leblon e tem apê na França não votar como a esmagadora maioria dos endinheirados? Soa como exigência de fidelidade de classe. A diferença equivale a traição. O silêncio sobre o comportamento primitivo e intolerante é conivente. Vale o clichê: quem cala consente. Não está em jogo, enfatizo, o mérito das opiniões de Chico Buarque, mas o direito democrático de manifestação dele e de todos os brasileiros. Muita gente ralou para que opinar não resultasse mais em cana e castigo. Só o que faltava era um bando furioso de intolerantes e ressentidos levar a melhor em sua cruzada obscurantista, rancorosa e vulgar. Fonte: http://blogdomariomagalhaes.blogosfera.uol.com.br/2015/12/23/bronca-com-ape-de-chico-buarque-em-paris-expoe-intolerancia-e-ressentimento/

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