Quer aceitemos, entendamos, queiramos ou não,
somos todos seguidores de um prisioneiro político"
Frei Betto.
O EVANGELHO SEGUNDO MARIGUELLA
O Cristianismo revolucionou a humanidade. O mundo foi dividido entre os que crêem e os que não crêem no homem de Nazaré.
Os evangelhos passaram a ser a leitura mais rica de todo o universo, mudando a vida de multidões durante toda a história da era cristã.
Algumas pessoas proclamam o evangelho, outras vivem intensamente a boa nova. Há os que proclamam sem viver, e há também aqueles que com sua vivência, proclamam dia a dia as verdades cristãs, sem sequer freqüentar qualquer templo, ou andar com a bíblia sob os braços.
Foi assim, que no Brasil, durante a ditadura militar que destruiu a cidadania e a dignidade que sentíamos de ser brasileiros, açoitando a sociedade com toda forma de desmandos e repressões, trancafiando em calabouços todos que sentiam-se injustiçados e gritavam por liberdade; surgiram os evangelistas do dia a dia, que de armas nas mãos, e longe dos templos, pregavam valores cristãos como liberdade e justiça social
Pessoas que assumiram plenamente sua cruz, sem medo de perder a própria vida em busca da liberdade coletiva. Entenderam como poucos as palavras do messias: "quem quiser conservar sua vida há de perdê-la, mas quem doar sua própria vida há de encontrá-la".
Esses homens e mulheres, que não se furtaram a doar suas próprias vidas, foram movidos por intensos sentimentos de amor. Um amor que não reconheceu fronteiras, limite ou medos, um amor doação que refletiu plenamente a boa nova do Cristo.
Vozes se levantarão para dizer que os mártires aqui declarados, não passavam de delinqüentes, assassinos, comunistas, terroristas e tantos outros rótulos subversivos. Esquecem-se tais "donos da verdade", que o próprio Cristo também fora taxado de criminoso, e de promover a desordem social, ao pregar a justiça e a paz.
Outros dirão que a paz de Cristo, não condiz com as armas empunhadas pelos revolucionários brasileiros. Que paz há em um país onde milhares de pessoas morrem na mais infame miséria, pais de famílias procuram emprego como se fossem mendigos encontrando pela frente apenas portas fechadas, crianças são destinadas ao trabalho semi-escravo para enriquecer ainda mais os poderosos, trabalhadores são torturados de todas as formas por lutarem por sua liberdade?
Talvez se esqueçam também que o Deus da Paz enviou Davi contra o gigante Golias e o anjo da morte sobre o Egito. Que o próprio Cristo expulsou com violência os vendilhões que profanavam o templo. Qual o maior templo de Deus se não o homem?
Foi neste contexto que homens como Carlos Marighela, Carlos Lamarca, Betinho, Henfil, Genoíno e tantos outros que, embora nunca tenham sido do clero, anunciaram a boa nova, lavando com seu próprio sangue, as manchas da injustiça em busca de um país melhor e mais justo.
Graças ao bom Deus, tais atitudes evangelizadoras encontraram eco também nas igrejas. Membros do clero, pastores evangélicos e tantos outros se engajaram na luta pela democratização.
D. Helder Câmara, D.Paulo Evaristo Arns, Pe. Marcelo Cavalheira, Frei Fernando, Frei Ivo, Frei Betto e Frei Tito, entre tantos outros, livraram a igreja brasileira da mancha diabólica causada pela inércia daqueles que em nome da paz, se omitiram frente ao massacre de seu próprio povo.
A tortura também esteve presente em nossa região. Madre Maurina Borges, esteve presa na cadeia pública de Cravinhos, tendo sido torturada pelo delegado Renato Ribeiro Soares, excomungado pelo então Bispo de Ribeirão Preto.
Não me sinto capaz de descrever o sentimento vivenciado, ao assistir o depoimento emocionado de Frei Betto, quase quarenta anos depois, ao regar com lágrimas a memória de seu confrade Frei Tito de Alencar Lima, que capturado pelos militares, foi brutalmente torturado durante dias consecutivos, e mesmo no deserto da dor física e psicológica, em momento algum traiu seus camaradas, acalentando com seu sangue e suas lágrimas o sonho da liberdade. Esse momento me lembra a imagem de Cristo que açoitado, humilhado, desprezado e abandonado, jamais renegou o amor do Pai aos seus filhos. O mesmo amor que garantiu a Frei Tito, a força necessária para suportar a dor que lhe impuseram seus carrascos.
Hoje, certamente vivos junto ao Pai, ao lado de tantos outros evangelistas brasileiros, ainda são para nós exemplos de fé e esperança, pois, como nos ensinaram desde a mais tenra idade "Prova de Amor maior não há, que doar a vida pelo irmão".
Que os religiosos de hoje, assumam a missão de proclamar com suas próprias vidas o evangelho da libertação, pois nosso povo ainda sofre injustiças e morre de fome às portas de nossas igrejas.
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